Atlanta
"Imagina que você pediu algo pra Deus na sua vida e ele realmente te deu.. Quanto tempo levaria para você esquecer que aquela parte da sua vida foi um presente?"
Naquela manhã de segunda-feira de janeiro eu estava animado, tava saindo de um ‘retiro espiritual’ e lá, conversando com Deus, concordamos que eu iria trabalhar em um lugar que não abrisse todos os dias, que eu recebesse tanto ou mais do que recebia no restaurante antigo, e que fosse um lugar que tivesse a ver comigo, onde pudesse me sentir bem. Naquela mesma manhã eu descobri o Atlanta.

Honestamente o Atlanta não era nada demais. O lugar parecia mais uma casa que um bar. O dono chamava Vitor, era mais novo que eu, e os pais dele eram estranhamente ativos naquela obra. Faltavam menos de vinte e quatro horas para a abertura oficial e tava tão bagunçado que realmente não parecia que ia abrir.
A propósito, eu não ia trabalhar lá. Tava só fazendo uma visita pela Mixta, a consultoria onde eu trabalhava na época. Conversa vai, conversa vem, fui ligando os pontos do que o Atlanta esperava ser: um bar/baladaba·la·das. f.Casa que abre quando as outras fecham. Tem pista, tem balcão, e tem uma diferença de umas quatro horas entre o que ela promete e o que ela é., abrir só no fim de semana, num bairro bom, de rap e hip-hop. Não é preciso ser muito inteligente para perceber os sinais.
Mas quem me convenceu mesmo foi o César. Vale a pena acreditar em tudo que surgiu do amor.

Depois de alguns acordos internos, agora eu era o chefe de bar, e tinha menos de vinte e quatro horas para botar aquele bar em pé. Naquela época vinha de uma temporada grande de trabalho, evolução, campeonatos e responsabilidades. Sem família ou amigos próximos, era uma pessoa muito diferente de quem sou hoje.

Vínculos afetivos no trabalho são loucura. Era o que eu achava.
O Atlanta parecia uma creche administrada pelas próprias crianças. Me impressionava como ninguém sabia nada sobre nada naquele lugar.
Tudo ali para mim estava errado. O que mais me incomodava era que o Vitor tinha contratado os amigos. Atitude impensável pra mim. Vínculos afetivos no trabalho são loucura. Porém, você vai notar que se tem alguém que costuma estar errado nesta história sou eu.
Pouco tempo depois da inauguração surgiu a oportunidade de sair da posição de chefe de bar e me tornar o gerentege·ren·tes. m. e f.Quem fica entre o dono e o time e leva pancada dos dois lados. Um oceano de distância do cargo de baixo, e quase nada de salário a mais pra compensar. da casa. Oportunidade que eu não queria. Existe quase um oceano de diferença entre os dois cargos. Mas claro que, por um considerável aumento de salário, posso ser bem flexível às vezes.
Lembro de ligar para o meu pai naquele dia para perguntar a opinião dele sobre gerentes.
“O gerente faz a vontade do dono. Se o dono é ruim, o gerente é pior. Eu nunca aceitei um cargo assim, meu filho, porque acho que não ia conseguir brigar ou demitir um amigo.”
André Mercês — garçom há trinta anos — meu pai
Ouvir isso do meu pai me quebrou. De repente eu tinha dois grandes problemas, porque já tinha feito a escolha de demitir amigos antes, e agora o Vitor e o grupo de amigos contratados dele também eram meus amigos. De repente a palavra colaboradorco·la·bo·ra·dors. m.Palavra que a empresa usa pra não dizer o nome da pessoa. Serve até o dia em que você aprende os nomes. Depois disso não serve mais pra nada. mudou para João, Hiago, Nath, Marcus, Rapha, Thales. E para piorar, o Vitor me parecia uma boa pessoa. O que me obrigaria a ser melhor ainda.


Não foi coincidência que a minha primeira contratação pro Atlanta tenha sido o Dudi. O Dudi é, pra mim, um grande amigo. Ele nem percebeu, mas já salvou a minha vida quando ainda éramos conhecidos. E pra um cara como eu, receber ajuda espontânea de alguém assim é, para além de um gesto de amizade, um gesto de amor.
O Vitor não curtiu muito ele da primeira vez, mas também pudera: o Dudi chegou de roupa social, afinal ele era garçom de restaurante fino, por assim dizer. Mas foi um momento importante pra nós três, porque foi a primeira vez que o Vitor confiou numa decisão minha. O que depois me ajudou a confiar nas minhas próprias decisões. E o Dudi é sensacional em matéria de organização, cuidado, protocolos e confiança. Ele é excepcional em tudo que eu não sou. Todo gestor precisa de um braço direito que o complemente, eu tinha o Dudi.

Posso afirmar com segurança que o primeiro ano do Atlanta foi o melhor. Foi profundamente desafiador pra mim, porque tudo que eu tinha construído até aquele momento era sobre coquetel. E agora começava um processo que na época eu não entendia sobre tornar a coquetelaria uma soft skill, e não mais quem eu era. Ou quem eu sou.
Naquele ano aprendi sobre muitas coisas. Mas principalmente aprendi sobre mim mesmo. Conforme as noites iam passando, os desafios sendo superados, novas pessoas surgindo, fui gradativamente redescobrindo aspectos meus que tinham ficado para trás.


O Atlanta me permitiu ter um lugar para receber a cena dos bartenders, que sempre foi tão carente. Conhecer e ajudar os DJs me lembrou que o meu pai é DJ. É o hobby da família. E que eu tinha conhecimentos de um antigo eu esquecido. Existe uma chance considerável de que se você está lendo isso agora é porque somos amigos. E foi no Atlanta que a gente se conheceu, não foi?

De repente me vi apegado à ideia de criar um lugar onde nós pudéssemos ser melhores. Um lugar onde existisse carinho genuíno, onde a palavra hospitalidadehos·pi·ta·li·da·des. f.Receber bem. Quando vira regra de negócio, morre; quando é vivida, ninguém precisa treinar ninguém. A diferença aparece na terceira hora de turno. fosse de fato vivida, e não imposta como regra de negócio. E me ocorreu:
Nunca mais vou precisar demitir um amigo se ninguém esquecer que o Atlanta é um presente.
O Atlanta é um presente.
Aos amigos.
Aos futuros amigos.
Aos amigos distantes, que a gente só vê às vezes.
Aos deslocados.
Aos solitários.
Aos confusos.
Aos perdidos.
Aos amantes.
Um lugar onde a vida é possível.
Mas não só de amor vive um negócio. E não demorou tanto assim pros problemas começarem a surgir.
Todo problema é uma oportunidade de crescer. Sendo honesto, eu até sentia que a gente tava precisando se mexer um pouco. Pra ser uma boa história é preciso um BOM antagonista. Um adversário, um oponente. Um Coringa para um Batman. No segundo semestre de 2022 surge a PLUR.
